

Balneabilidade em São Vicente: o que o esgoto clandestino faz com a água da praia e como medir isso
Todo verão a mesma cena se repete no litoral paulista: placas de imprópria fincadas na areia, faixas de água escura saindo de canais e a pergunta que ninguém responde direito, ou seja, de onde vem isso. A resposta técnica quase sempre começa longe da praia, dentro dos imóveis, em ligações de esgoto feitas na rede de águas pluviais. Este texto explica, com base no Manual de Saneamento da Funasa, como a contaminação é medida, por que os coliformes são o indicador escolhido e o que cada morador de São Vicente pode fazer para não fazer parte do problema.
Por que se mede coliforme e não a doença
Há vários organismos cuja presença em um corpo d'água indica uma forma qualquer de poluição. Para indicar especificamente a poluição de origem humana, adotam-se os organismos do grupo coliforme como indicadores.
As bactérias coliformes são típicas do intestino do homem e de outros animais de sangue quente. Estão presentes nas fezes humanas em quantidade enorme, da ordem de 100 a 400 bilhões de coliformes por habitante por dia, e são de determinação simples e barata. Por isso servem de referência para indicar e medir a grandeza da poluição.
O manual explica com franqueza a lógica por trás dessa escolha: seria trabalhoso e antieconômico realizar análises para determinar a presença de organismos patogênicos no esgoto; em vez disso determina-se a presença de coliformes e, por segurança, age-se como se os patogênicos também estivessem presentes.
Guarde essa frase. Ela explica por que uma praia é interditada mesmo sem ninguém ter adoecido ainda. O coliforme não é o vilão: ele é o aviso de que material fecal chegou ali, e junto com ele podem ter chegado vírus, protozoários e ovos de helmintos.
A ordem de grandeza do problema
Os microorganismos eliminados nas fezes humanas são de diversos tipos, e os coliformes, entre eles Escherichia coli, Aerobacter aerogenes e Aerobacter cloacae, estão presentes em grande quantidade, podendo atingir um bilhão por grama de fezes.
Vale colocar esse número ao lado de outro dado do manual: o esgoto doméstico é composto por aproximadamente 99,9% de água e apenas 0,1% de sólidos. Ou seja, o líquido que sai de um cano de esgoto parece água suja, mas o problema está concentrado em uma fração mínima da massa. É por isso que diluição no mar não resolve: mesmo muito diluído, o número absoluto de bactérias despejado continua altíssimo.
Some-se a isso a relação entre consumo de água e geração de esgoto. Quanto maior a oferta de água, maior a produção de esgoto, e nessa condição os esgotos produzidos exigem destinação mais adequada, considerando vazão, tipo de solo, nível do lençol e tipo de tratamento. Um imóvel de veraneio que no feriado abriga quinze pessoas gera, por alguns dias, a carga de uma pequena edificação coletiva.
De onde vem o esgoto que chega ao mar
Existem três caminhos clássicos, e os três são corrigíveis.
O primeiro é a ligação cruzada. O sistema urbano moderno é separador absoluto: uma rede leva esgoto, outra leva água de chuva, e elas não devem se encontrar. Quando um vaso sanitário, uma máquina de lavar ou uma pia é ligada à galeria de águas pluviais, o esgoto vai direto para o canal e do canal para a praia, sem passar por nenhum tratamento. Não há estação que corrija isso: o desvio acontece antes de qualquer tratamento existir.
O segundo é o extravasamento de fossas e sumidouros saturados. Em terreno arenoso e com lençol raso, comuns na Baixada, o sistema individual perde capacidade de absorção e passa a transbordar para a sarjeta nas chuvas. O manual determina inspeção semestral de sumidouros, valas de infiltração e valas de filtração e, havendo redução da capacidade de absorção, a construção de novas unidades.
O terceiro é a rede pública em más condições, com refluxo em poço de visita ou infiltração para a galeria pluvial. Esse caso é de competência da concessionária, mas o morador ajuda ao relatar poço de visita transbordando, o que costuma ser o primeiro sinal visível.
Tratamento: o que remove coliforme de verdade
Nem todo tratamento é feito para reduzir bactérias. O tanque séptico é tratamento primário: separa sólidos, inicia a digestão anaeróbia e entrega um efluente clarificado, mas ainda com carga bacteriológica alta. As eficiências de remoção de DBO indicadas no manual ajudam a situar cada etapa: 30% a 50% em tanque séptico de câmara única, 35% a 65% em câmaras em série, 70% a 90% em filtro anaeróbio e 75% a 95% em valas de filtração.
Para redução de coliformes especificamente, o manual aponta uma unidade dedicada: a lagoa de maturação. Sua principal finalidade é a redução de coliformes fecais contidos nos despejos de esgotos. Ela é construída sempre depois do tratamento completo de uma lagoa facultativa ou de outro tratamento convencional e, com dimensionamento adequado, alcança índices elevados de remoção de coliformes, com eficiência muito boa.
Ou seja: quem promete que uma fossa resolve a contaminação da praia está errando de escala. A fossa resolve o destino do esgoto do imóvel; a qualidade bacteriológica do corpo receptor depende de etapas complementares.
O que a legislação sanitária persegue
Entre os objetivos do controle da poluição das águas, o manual cita expressamente o controle da poluição das praias e dos locais de recreação com o objetivo de promover o turismo, ao lado da proteção dos mananciais e da preservação da fauna aquática, especialmente os criadouros de peixes. Em uma cidade como São Vicente, os três objetivos convergem no mesmo lugar e no mesmo período do ano.
O que o morador e o síndico podem fazer
Primeiro, conferir para onde vai cada ponto de água do imóvel. Máquina de lavar, tanque, pia de cozinha e ralo de área de serviço muitas vezes foram ligados na chuva por conveniência de obra. Em um sobrado antigo, essa checagem costuma revelar pelo menos um ponto trocado.
Segundo, manter a caixa de gordura funcionando. A recomendação do manual é instalar caixa de gordura na canalização que conduz os despejos da cozinha, com a finalidade de prevenir a colmatação dos sumidouros e a obstrução dos ramais. Caixa saturada empurra gordura para a rede e é uma das maiores causas de refluxo em rua inteira.
Terceiro, respeitar o intervalo de limpeza do tanque séptico definido em projeto. A falta de limpeza no prazo reduz de forma acentuada a eficiência e manda sólidos para a disposição final.
Quarto, não lançar soda cáustica na rede. O manual é categórico: sob nenhum pretexto devem ser lançadas soluções de soda cáustica, pois além de interferir na eficiência do sistema, elas provocam a colmatação dos solos argilosos. Em compensação, sabões nas proporções usuais, de 20 a 25 mg/L, não prejudicam o funcionamento.
Quinto, não conectar água de chuva ao esgoto, nem esgoto à chuva. As duas inversões causam problemas opostos e igualmente graves: a primeira afoga o sistema de tratamento, a segunda contamina a praia.
Sinais de ligação irregular no seu imóvel
Cheiro de esgoto na caixa de passagem de águas pluviais, água com espuma saindo da tubulação de chuva em dia seco, ralo de área de serviço com odor forte, retorno na garagem durante chuva e caixa de inspeção com nível permanentemente alto. Qualquer um desses sinais justifica uma inspeção com teste de corante ou videoinspeção para identificar o traçado real da tubulação, que muitas vezes não corresponde ao projeto original.
Atendimento em São Vicente e Baixada Santista
Fazemos desobstrução de esgoto e de rede pluvial, limpeza de caixa de gordura, fossa e sumidouro, hidrojateamento de alta pressão e videoinspeção para identificar ligações cruzadas e trechos rompidos sem quebrar piso. Atendemos São Vicente, Santos, Praia Grande, Cubatão e Guarujá, com equipe própria, plantão 24 horas e orçamento fechado antes de iniciar. Se o seu imóvel fica perto de canal e o cheiro aparece sempre que chove, vale investigar o traçado antes de aceitar que o problema é da rua.
